
Perguntas só nas sextas
Se não for urgente, sempre guardo minhas perguntas para sexta-feira.
Talvez fosse o fim de semana logo ali na frente: pelo menos aos meus olhos, o colega encarregado de me treinar parecia de melhor humor nas sextas. Então, em vez de soltar cada dúvida no instante em que ela aparecia durante o expediente, eu ia anotando uma por uma num canto do bloco e só na sexta perguntava, com cuidado.
Qual era a diferença entre os arquivos do mês passado e os deste mês. Se aquelas tarefas que voltavam sempre tinham um cronograma fixo ou algum critério claro. Perguntas miúdas, no fundo.

Mas o fato de a sexta chegar não deixava as respostas mais macias. Por que eu perguntava de novo uma coisa já explicada por e-mail; e, junto com a alfinetada, o rosto dele endurecia na hora.
O que desabava sobre mim, em troca, era uma enxurrada de e-mails em que eu estava em cópia. Eu me debatia no meio de toda aquela letra tentando reconstruir de algum jeito o fio do trabalho. Nove em cada dez vezes havia uma frase que me escapara escondida em algum daqueles textos. Ou eu não tinha visto por ser novato, ou era algo que eu jamais deveria ter deixado passar.
Houve momentos em que a falha era claramente minha e momentos em que subia pela garganta algo muito parecido com injustiça. Mas, qualquer que fosse a situação, eu virava culpado por puro reflexo. Enquanto rolava o mouse às pressas atrás do trecho que tinha deixado passar, metade da minha cabeça estava ocupada pesando se pedia desculpa primeiro ou emendava uma desculpa esfarrapada.
Aprender o serviço no meio dos e-mails
Nunca esperei que houvesse um manual bem-organizado me esperando no primeiro dia. Só esperava que as instruções fossem um pouco mais claras.
As explicações dele passavam sempre de raspão. Em vez de um contexto que se desdobrasse em ordem, chegavam instruções fragmentadas, cortadas de repente. As lacunas eu tinha que preencher sozinho, garimpando os e-mails em cópia acumulados na caixa de entrada.

Eu anotava sem parar. Reabria e-mails antigos, juntava os pedaços espalhados, tentava entender de algum jeito. Queria saber o que estava fazendo e por quê. Mas aos olhos dele eu devia ser o subordinado lento que perguntava de novo sobre um serviço já explicado.
O que escapava uma vez voltava como um conserto maior. Tapar essas brechas empurrava minha saída para uma hora incerta, e não foram poucas as noites em que levei para casa o que não tinha conseguido terminar em campo. Se o esforço ia na direção certa, até hoje não sei. Mas eu estava, sem dúvida, dando tudo de mim.
Quanto mais as broncas se acumulavam, mais eu culpava minha incompetência em vez de olhar para o emaranhado do próprio trabalho. Se eu demorava a absorver as tarefas, se em algum momento tinha havido uma explicação decente, ou se aquilo era simplesmente uma bagunça geral, não havia como saber. Fosse qual fosse a verdade, eu continuava perdido do mesmo jeito.
Enfim, dizem que abaixar a cabeça e fazer o que mandam é o destino de quem é empregado.
Ainda assim, mexer mãos e pés às cegas sem saber o que fazia nem para quê deixou um cansaço bem mais fundo do que eu imaginava.
Ainda assim, eu gostava do trabalho
A profissão em si eu gostava bastante. Quando dava problema num controlador em campo, toda a sequência de trocar uma peça ou reconfigurar o programa lembrava bastante montar um computador, coisa de que eu gostava de vez em quando. Por mais complicado que um equipamento parecesse, bastava abrir a tampa para ver as peças, cada uma com sua função, engrenando com honestidade.

E, acima de tudo, eu gostava das horas rodando sozinho. Talvez fosse esse o maior consolo de todos.
Tinha o desgaste de passar o dia inteiro ao volante no meio de Seul, mas ir de obra em obra combinava muito mais com meu temperamento do que aguentar pregado num lugar fixo. A relação com o pessoal da equipe não pesava tanto, e também não era que eu não suportasse ver nada da empresa. O trabalho não ia contra o meu perfil, e isso tornava ainda mais difícil chegar a uma conclusão rápida.
Ele também devia ter os problemas dele. Dar conta da própria carga e ainda criar um novato não pode ser nada fácil. Para ele, alguém que insistia em perguntar o porquê, que queria enxergar primeiro o conjunto, provavelmente parecia um novato exasperante. Pode ser que eu o estivesse esgotando na mesma medida.
Nosso jeito de passar o serviço um para o outro estava desalinhado. Eu sempre queria saber a razão; ele parecia achar que dizer uma vez o que precisava ser feito bastava. Nossas conversas quase nunca chegavam ao outro: giravam no vazio.
No fim, decidi arquivar aquilo como o que era, duas pessoas desgastando uma à outra. Embora decidir isso não apagasse de vez as perguntas que continuavam rodando na minha cabeça.
Os dias em que eu quero pedir demissão
Nos dias especialmente injustos e especialmente pesados, a palavra demissão rodava na minha cabeça sem falta.
Eu abria um site de vagas sem plano nenhum e espiava o outro mundo dentro da tela. Será que existe um lugar melhor que este. Será que existe um ambiente que combine um pouco mais comigo. Com o olhar perdido na luz do monitor, de repente me perguntava se não estava espremendo motivos para ir embora.

No fim, fechei a janela em silêncio, sem ter enviado o currículo para uma vaga sequer.
Aguentar nem sempre é a resposta, mas fugir também não pode ser sempre a certa. Se eu estava atravessando esse período de verdade ou se estava me esforçando para não olhar o motivo real de ir embora, não havia como saber, e isso me deixava sem chão.
O muro da realidade era alto demais para eu jogar a carta de demissão agora. Havia uma vida apertada que só continuava girando porque todo mês o salário caía na conta, e havia a minha parte de um peso que carrego calado sob a palavra família. Então pedir demissão não era uma carta que eu pudesse jogar de leve só porque meu humor tinha azedado.
Mas também não sabia se era certo aguentar às cegas, torcendo para que a relação desconfortável com ele melhorasse sozinha. Com o resto dos colegas eu me dou bem, e este trabalho, do jeito dele, me agrada. Ainda assim, se esse nó nunca se desfizer, o que exatamente eu devo fazer?
As noites em que não ligo o computador
A rotina foi pesando nos meus ombros aos poucos, mas sem margem de dúvida. Até a lembrança da última vez em que mergulhei fundo em alguma coisa tinha ficado distante. Chegar em casa, desabar num quarto vazio, entregar o olhar à luz do celular e preparar o dia seguinte como se estivesse sendo perseguido: isso virou a minha vida inteira.
Houve um tempo em que eu tinha mais hobbies do que conseguia dar conta. Bastava pegar o iPad Pro para que mil coisas para fazer transbordassem. Eu desenhava sem pensar em nada, ou abria um aplicativo de leitura e escolhia o livro que a mão alcançasse. Foram muitos os dias de ir a um café, abrir o iPad e organizar as ideias escrevendo qualquer coisa ao lado de uma xícara.
Num canto do quarto há um projetor. Bastava me deixar envolver pela luz da Netflix projetada na parede branca para a vida parecer bastante boa. E o computador. Quando me sentava diante dele, conseguia passar horas sem me mexer. Jogando ou trabalhando, toda a minha vida passava pelo que havia do outro lado daquele monitor.
Mas agora aqueles aparelhos perderam o calor. Ficam ali, abandonados em silêncio num canto do quarto, como se estivessem mortos.
Chegou ao ponto de eu nem apertar mais o botão de ligar do computador.

Se esse desânimo denso é o que as pessoas chamam de burnout ou só o resíduo que um dia duro deixa, ainda não sei dizer. O que estava claro é que alguém que antes desejava as coisas com tanta força agora fecha o dia olhando para o teto. Pelo menos quem eu sou agora não tem nada a ver com quem eu conhecia.
Três meses desde que entrei. Só três meses, ou já aguentei três meses inteiros?
Quando o ar desconfortável em volta dele vai se dissipar, se vou acabar domesticado e resignado a essa gramática árida, ou se vou dar as costas para este lugar sem olhar para trás: continuo sem conseguir medir nada.
A única coisa que me incomoda é esta: que vão se acumulando, uma atrás da outra, as noites que deixo passar diante de um monitor apagado sem conseguir ligá-lo.
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