Antes do “finalmente”, eu já vivia

Aos vinte e nove, o mundo enfim deu um cargo à minha vida. Mas eu não comecei a trabalhar aos vinte e nove; foi só quando o mundo começou a chamar aquilo de trabalho.

Colagem com aparência de gravura em azul-escuro, com prateleiras e telas vazias atravessadas por uma longa faixa de gaze branca
Música para este ensaio Faded Tape Loops Nap Lee / made with Suno
0:00

A palavra “finalmente”

Vinte e nove. O fim esfiapado dos meus vinte e tantos anos, tão gasto que já não havia mais onde se gastar. Empurrei a porta de uma pequena empresa desconhecida que nunca ocupara uma linha sequer no mapa da minha vida.

Uma porta branca aberta em um canto de uma sala vazia em azul-escuro

O trabalho: manutenção de equipamentos de trânsito automatizados. Ir até os aparelhos instalados ao longo das estradas, conferir se estavam em ordem e, quando alguma coisa falhava, achar a causa e consertar.

Foi o momento em que um cargo nítido enfim se gravou no contorno de uma vida que andava embaçada havia anos.

Quando minha mãe soube, a voz dela ficou clara como sol.

“Meu filho finalmente está trabalhando.”

Puxei um ar raso e fiquei parado um instante. Eu também vinha fazendo alguma coisa esse tempo todo.

Mas a mágoa que começou a subir se apagou em silêncio na nuca.

Porque eu sabia o calor que aquela palavra, trabalho, carregava do jeito que ela disse, aliviada.

Um dia de pagamento que volta todo mês; uma manhã prometida à espera, no lugar da inquietação de sempre. Mais do que negar o esforço que ficou para trás, era o alívio fundo de uma mãe por um filho que tinha tirado o pé da beira do abismo.

Não quis sacudir a poeira velha daqueles anos sobre um rosto tomado de alegria. Só assenti calado, mas aquela palavra, finalmente, ficou parada dentro de mim, balançando, até a noite.

Porque diante dela os últimos anos, percorridos descalço por uma estrada escura, pareciam ser apagados até ficarem em branco.

Trabalhar sem ter uma profissão para dizer

Eu sempre estivera me preparando, em silêncio, em alguma borda da minha vida. Preenchia fins de semana partidos com bicos e, nos dias de semana, me sentava à escrivaninha para me preparar para um futuro que eu mal conseguia enxergar. Assim, quando deixavam de precisar de mim num lugar, eu saía logo atrás de outro ganha-pão; ainda assim, continuava me lapidando para o lugar que um dia seria inteiramente meu.

Nunca lancei âncora fundo em lugar nenhum, mas conhecia bem demais o peso daquelas noites: sair para o mundo numa hora marcada, esbarrar em estranhos e voltar carregando o cansaço inteiro de um dia.

Preparar o futuro só era possível se eu conseguisse sustentar a vida de cada dia. Assim, o peso da minha vida foi passando de uma preparação sem prazo para o ganha-pão de hoje. Mandei currículos para várias empresas e acabei me candidatando a uma vaga no E-Mart. Foi assim que entrei para a equipe do Traders de Hanam.

Depósito vazio de supermercado, com prateleiras nuas, uma caixa de papelão e armários abertos

Meu tempo no E-Mart estava preso a um contrato de um ano inteiro. A madrugada azulada, quando a escuridão ainda não tinha ido embora. Eu seguia para a loja, mordendo em silêncio o ar frio. Enquanto as estações mudavam de cor sem fazer barulho, eu percorria o mesmo caminho todos os dias. Até nas manhãs em que abrir os olhos parecia difícil demais, acabava arrastando o corpo pesado para fora de casa.

Empilho caixas nos paletes e as levo para a área de vendas; preencho sem descanso as prateleiras vazias, como se precisasse empurrar mercadoria para dentro de cada espaço. Naquela repetição seca, despejei quase todo o meu tempo, sem guardar nada.

Talvez por isso, no último dia do contrato, o que eu sentia não se juntou numa coisa só.

Atrás do alívio transparente de nunca mais ser perseguido pela madrugada veio um vazio grosso: amanhã eu abriria os olhos sem ter para onde ir.

Leve, e com medo. Era o ponto final que eu tanto esperara e, mesmo assim, quando o dia chegou, meus passos pesaram, porque o que eu deixava naquele armário surrado não parecia ser só suor.

Ainda assim, o fim chegou, e aquele ano vivido com tanta luta escorregou, sem que eu pudesse impedir, para a gaveta chamada passado.

Em um único dia, o homem que batia o ponto com pontualidade toda manhã virou alguém que precisava explicar a própria ocupação como se pedisse desculpa.

No currículo secaram uma ou duas linhas de tinta preta, e foi só. O cheiro da madrugada que ficava na ponta do meu nariz, os pedaços de ânimo que tremulavam naquele último dia: naquele papel seco não havia onde nada disso pudesse marcar.

Quando olho com calma, eu não parei de me mover um instante. Só me faltava uma placa firme para pôr na frente do meu nome e deixar ali por muito tempo.

Um sonho que nunca virou profissão

Houve um tempo ainda mais difícil de explicar: os anos que passei trancado no mundo da arte, decidido a virar concept artist.

Um monitor escuro e esboços sobre uma mesa, com imagens sobrepostas de uma cidade imaginária na parede

Dia após dia eu sentava diante de uma tela escura, corrigia uma linha várias vezes, apagava o que não suportava e desenhava de novo.

Sentia um lampejo de alívio ao me achar um pouco melhor e então esbarrava no trabalho deslumbrante de outra pessoa e afundava ao ver o quanto o sonho tinha corrido para longe de novo.

Eu não fazia ideia de quanto ainda precisava andar para aquela preparação exaustiva acabar, mas aguentava acreditando que um dia aquele tempo brutal me levaria aonde eu queria chegar.

Mesmo sendo ninguém por enquanto, eu imaginava que, assim que conseguisse o nome de uma profissão, alguma medalha decente seria pregada em toda aquela falta de rumo.

Mas eu nunca cheguei a fazer parte daquele mundo.

Se eu tivesse me tornado alguém que sustenta a vida desenhando, aqueles anos exaustivos seriam lembrados como um aprendizado deslumbrante, suportado com firmeza por um sonho.

A luz do monitor que não apagava madrugada adentro, os dias em que eu desabava me xingando porque a mão não fazia o que eu pedia: eu poderia sorrir e chamar tudo aquilo de história que precisava acontecer para me formar.

Mas dei meia-volta no meio do caminho, sem chegar ao destino prometido, e aqueles dias luminosos viraram uma marca fria: perambulação, ou lacuna.

No fim, “estar se preparando para alguma coisa” é uma expressão reservada a quem termina com um resultado na mão.

O mais amargo não era só o mundo não contar aqueles anos. Cruelmente, eu também não soube defendê-los.

Quando alguém perguntava o que tinha sido de mim, eu me ouvia dizer, com deboche: “Joguei fora uns anos tentando viver de desenho”.

Não era de todo falso; o arrependimento estava espalhado por cima. Se eu pudesse voltar no tempo, com certeza há dias que gostaria de passar de um jeito completamente diferente.

Mas isso não quer dizer que eu não tenha feito nada.

Eu queria desesperadamente virar alguma coisa. Despejei nisso uma estação inteira da minha juventude. Só não cheguei.

Um resultado fracassado não consegue voltar atrás e apagar, como se nunca tivesse existido, a sinceridade que eu apertei dentro daquele processo longo.

Quando o resultado renomeia o passado

É estranho: o resultado não decide só como o presente aparece. Ele volta e renomeia o passado como bem entende.

Você pode aguentar exatamente o mesmo peso de tempo: chegue ao sonho e é elogiado como esforço; fique pelo caminho e é descartado como anos jogados fora.

Consiga o emprego e vira um glorioso “período de preparação”; vire para outra estrada e sobra como uma “lacuna” fininha entre duas linhas do currículo.

Onde eu chego no fim decide, atrasado, o que valeu cada dia da caminhada até lá.

Uma fileira de pequenos retângulos passa do azul-escuro a um brilho branco intenso

Mas nossa vida não existe só como material para fazer o resultado de agora brilhar.

Não vou me forçar a dizer que os anos de concept art tinham de servir para o trabalho que tenho hoje.

E também não quero maquiar aquele fracasso com a conclusão fácil dos livros de autoajuda: que tudo foi adubo precioso.

O que foi desperdiçado continua doendo como desperdício, e o que fracassou continua fracassado, como cicatriz. Só que dentro daquela preparação fracassada a vida de uma pessoa seguia respirando, inteira.

Não ter chegado aonde eu queria é um fato solitário, mas não é motivo suficiente para desfazer os dias em que caminhei, um passo de cada vez, na direção de algo que brilhava.

O tempo que passei sem virar nada também é tempo que vivi com o corpo inteiro, e ele conta.

Ter um trabalho que o mundo reconhece

Hoje eu ganho a vida fazendo manutenção de equipamentos de trânsito automatizados.

Quem antes se esforçava para desenhar mundos imaginários dentro de uma tela agora percorre as estradas duras do lado de fora, conferindo câmeras, radares e os aparelhos calados que ficam parados ao lado deles.

Não existe nenhum arco dramático ligando esses dois tempos.

Também não posso dizer que anos estudando desenho deram algum fruto brilhante neste trabalho. Eu só desci em silêncio da estrada em que estava e comecei a andar por outra, completamente diferente.

Nem cheguei a lugar nenhum impressionante. Entrar numa empresa pequena e simples não dissolveu minha inquietação como neblina, e não faço ideia se este será o último lugar onde vou trabalhar.

O que mudou é que, quando alguém pergunta de passagem o que eu faço, respondo na hora em vez de gaguejar. Tenho uma empresa para voltar, um trabalho pelo qual respondo e um lugar que na semana que vem ainda vai estar me esperando.

Provavelmente foi por isso que a alegria da minha mãe foi tão clara.

Não porque ela achasse que o filho tinha enfim alcançado um grande sucesso, mas pelo alívio de ver uma vida que balançava ganhar uma forma mais firme, um pouco mais previsível.

O fato de eu não parecer mais um filho à deriva, capaz de encalhar em qualquer lugar: isso deve ter sido uma alegria enorme para ela.

Por isso não fiz questão de corrigir aquele “finalmente” que escapou dela naquele dia, e também não pretendo discutir isso mais para a frente.

Ela tem o “finalmente” dela, o que solta ao respirar aliviada, e eu continuo com tudo o que veio antes, intacto: o trecho longo e escuro.

Eu só queria colar, com cuidado, uma pequena nota de rodapé atrás dessa frase, na gaveta mais funda do meu peito.

Uma gaveta metálica aberta guarda fotografias desbotadas de um depósito e de equipamentos de trânsito à beira da estrada

Eu não comecei a trabalhar aos vinte e nove. O que aconteceu é que aos vinte e nove o mundo enfim começou a chamar de “trabalho” aquilo que eu vinha fazendo com todas as forças.

Antes disso, eu sempre estava me preparando para alguma coisa, cortando o ar frio da madrugada a caminho do trabalho daquele dia. Também me sentei e me levantei incontáveis vezes diante de uma tela velha que nunca chegou a me dar o nome de uma profissão.

Na manhã inquieta depois do fim de um contrato, e na volta miserável daquele lugar alto que chamam de sonho, eu segui andando, de algum jeito, na direção da vida seguinte.

Pode ser que eu nunca tenha virado nada luminoso, mas o tempo que atravessei nunca foi coisa nenhuma.

Muito antes de a cortina deslumbrante daquele “finalmente” que o mundo aplaude ser aberta, eu já estava vivendo a minha parte da história, e vivendo com todas as forças.


Comentários0Ler e comentar

Comentários com opiniões diferentes também são bem-vindos. No entanto, comentários com publicidade, mensagens repetidas, discurso de ódio ou ameaças, ou dados pessoais de terceiros poderão ser removidos.

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados com *.